Homenagem a Hugo “Vicky” Marques: A Partida Prematura de um Gigante da Bateria em Portugal
A música portuguesa chora novamente. Pouco tempo depois da dolorosa perda do incontornável cantor e compositor Luís Represas, a cena artística nacional sofreu mais um golpe profundo com a notícia do falecimento do conceituado baterista Hugo “Vicky” Marques, aos 51 anos de idade. A sua partida, ocorrida após uma batalha corajosa contra uma doença prolongada nos últimos meses, deixa um vazio imensurável no panorama musical do país e no coração daqueles que com ele partilharam palcos, estúdios e momentos inesquecíveis.
Ao longo de mais de três décadas de uma carreira brilhante e irrepreensível, Hugo “Vicky” Marques consagrou-se como uma figura de referência no ecossistema cultural português. Conhecido pela sua precisão ritmíssima, versatilidade técnica excecional e uma sensibilidade artística ímpar, Vicky foi o motor pulsante por trás de muitas das composições e concertos mais marcantes das últimas décadas. A sua capacidade de transitar sem esforço entre diferentes géneros musicais — da pop ao fado, passando pelo rock, jazz e música do mundo — fez dele um dos instrumentistas mais requisitados e respeitados, não só em Portugal, mas também no plano internacional, onde teve a oportunidade de colaborar com vários nomes de relevo mundial.
Além do seu talento inquestionável com as baquetas nas mãos, Hugo Marques distinguished-se igualmente pela sua visão e compromisso com o desenvolvimento da cultura local e com o apoio a novos talentos. Como fundador da Start-Up Cultural de Arruda dos Vinhos, demonstrou um espírito empreendedor e comunitário exemplar. Através deste projeto inovador, criou oportunidades, promoveu a formação artística e ajudou a descentralizar a oferta cultural, deixando uma marca indelével na região e inspirando futuras gerações de criadores e músicos.
A confirmação da sua morte gerou uma onda imediata de comoção e solidariedade nas redes sociais, com dezenas de personalidades, colegas de profissão e amigos a prestarem homenagens sentidas ao longo de todas as plataformas digitais. A lista de artistas que recorreram à internet para expressar a sua dor e gratidão reflete a dimensão e o alcance do seu trabalho.
A cantora Aurea, com quem partilhou momentos marcantes em palco, dedicou-lhe palavras emocionadas, destacando não apenas a sua genialidade como baterista, mas também a sua presença generosa e bem-humorada nos bastidores. Outras vozes maiores da música portuguesa, como Mafalda Veiga, Paulo Gonzo, Miguel Gameiro, Cuca Roseta e a fadista Mariza, fizeram questão de assinalar publicamente o carinho e o respeito profissional que nutriam por Vicky. Cada mensagem partilhada contava a história de uma cumplicidade construída nota a nota, ensaio a ensaio, concerto a concerto.
Entre os múltiplos depoimentos, destacou-se o de Rita Guerra, uma das vozes mais prestigiadas da música nacional e amiga de longa data de Hugo Marques. A artista utilizou a sua página oficial para manifestar o seu profundo pesar, prestando uma sentida homenagem ao colega:
“Recordo-o não só como o músico magnífico que sempre foi, mas como um colega incrível, de uma generosidade e de uma humanidade raras.”
A trajetória de Hugo “Vicky” Marques confunde-se com a própria história recente da música feita em Portugal. Ao longo da sua vida artística, teve o privilégio e a responsabilidade de atuar em algumas das mais prestigiadas salas de espetáculo do mundo, levando o ritmo e o talento português a auditórios e festivais internacionais de grande relevo. Contudo, apesar de ter pisado os maiores palcos globais, manteve sempre uma postura humilde, focada na essência da música e na criação de laços genuínos com os músicos que o acompanhavam.
A perda de um artista com o seu perfil aos 51 anos de idade é um momento de reflexão sobre a brevidade da vida e a importância da memória cultural. Numa altura em que o público e a comunidade artística ainda tentavam processar o desaparecimento recente de Luís Represas, a partida de Hugo Marques reitera a fragilidade do meio e o valor incalculável do património humano que estes criadores constroem em vida.
Embora a sua presença física e o som inconfundível do seu ritmo ao vivo se tenham apagado, o legado de Hugo “Vicky” Marques permanecerá bem vivo. Ele continuará presente nas centenas de gravações em que participou, nos discos históricos onde deixou a sua assinatura rítmica e na memória dos milhares de espetadores que vibraram com o seu talento nos concertos. Fica também o seu exemplo de dedicação à arte e de amor à comunidade através da Start-Up Cultural de Arruda dos Vinhos, um testemunho permanente de que a música é, acima de tudo, uma força de união e transformação social.
Neste momento de luto e dor, o mundo da cultura portuguesa une-se para expressar as mais sentidas condolências à família, aos amigos próximos e a todos os que tiveram o privilégio de conviver e trabalhar com este enorme músico. Hugo “Vicky” Marques parte cedo demais, mas o seu ritmo continuará a ecoar para sempre na história da música portuguesa.